quinta-feira, 15 de setembro de 2016

dando o troco ou na exata medida do amor pela minha mãe e pelo meu cu

quantas e inúmeras vezes você já foi garfado em um ou dois, três centavos? dezenas. centenas. milhares de vezes? agora multiplique isto por milhões, além de você. o resultado, eu troco pelo meu salário, que apesar de já não ser o que era, ainda é salário de publicitário, e isso ainda fazendo doações de carteirinha. de puteiros a instituições de apoio a miséria alheia, para chegar a um líquido pra lá de sólido.

dizem que a culpa é do banco central. da falta de moedinhas ou da falta de brasilidade? e ai eu me lembro de um dos filmes do super-homem
(o que caiu do cavalo) onde o homem do humor ácido, richard pryor - aquele que de tão viciado em cocaína, ateou-se fogo, hoje já falecido - fazia um personagem tido como simplório. de emprego invisível num banco. e que desenvolveu um programinha que arredondava as frações, desviando os centavos para sua conta, tornando-se ele um bilhardário do crime, que acabou comprando bancos, inclusive o que ele onde trabalhava.

nós brasileiros, odiamos as moedinhas, cuja serventia até hoje é gerar pragas até a décima geração, quando são recebidas pelos pedintes em geral. e olhe que estes também contumazes contabilistas do de grão em grão, o que lhes dá um faturamento nunca menor que dois três salários mínimos. experimente dar-lhes umas moedinhas de um centavo se você não tem amor a sua mãe e ao seu cu.

as empresas em geral, são ainda mais matreiras. tudo é a 0,99. (só nos camelôs que é a um real. )3,99. 2,99. 6.99. nada é exato (para você). experimente também, se você não tem amor a sua mãe e ao seu cu, empacar a fila para exigir seu centavo de troco. no brasil, perde-se a cidadania por centavos também. e não só pelas grandes somas de maracutaias federais, o que nos leva a conclusão de que além da importância contabilística, se uma moeda não é nada, milhões de moedas são milhões, há a questão simbólica, mais absolutamente real e concreta do respeito a cidadania que não há: sé é 1,99, não é dois(porque não colocam então logo que é 2? não imagina o porquê ?) e que portanto não lhe darem sequer uma satisfação sobre a falta de troco, ou a balinha, isso quando a balinha custava centavos, significa muito mais, isso se não fossemos um povo que despreza as moedinhas, porque moedinha é coisa de pobre. de fodido. e é mesmo, estão nos fodendo de verde e amarelo a cada moedinha, perdoem-me a redundância, moedinha que é o preço do afeto ou desafeto que você tem pelo amor de sua mãe ou seu cu, que a julgar pelos fatos, não vale uma.

mas eu agora já decidi. chega de ser sacaneado sem cuspe. vou dar o troco. 1,99. então tome 1,98. vai encarar? e com isso, certamente não serei um milionário até o final do mês. mas no fim do ano, com certeza, vou me sentir menos fudido. isso se não me fuderem a fuça, com as ameaças que vou levar pela frente, certamente, o que pode me levar para sarjeta onde também recusarei a tal moedinha praguejando-lhe o valor do preço do afeto que você tem pelo amor de sua mãe ou do seu cu.

mas, se lhes serve de consolo, antes pela frente, do que pelas costas. a tal moedinha faz um estrago sem tamanho no piloro, ou melhor, nos pilares da nossa nacionalidade.

originalmente publicado em 13/08/2006, no já extinto elixirparegorico.blogspot.com)

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